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Os “champagne problems” das irmãs March como mulheres no século XIX - Resenha

 Sometimes you just don't know the answer

'Til someone's on their knees and asks you

"She would've made such a lovely bride

What a shame she's fucked in the head, " they said

But you'll find the real thing instead

She'll patch up your tapestry that I shred


Champagne Problems/Evermore - Taylor Swift


Talvez haja um melhor jeito de começar uma resenha sobre a adaptação dos livros Mulherzinhas (1868) e Boas esposas (1869) para a produção audiovisual de Little Women (2020). Mas talvez essa outra forma não seja tão fiel aos sentimentos produzidos por ambas as narrativas no leitor, neste caso, espectador.


Uma das músicas que compõem o último álbum lançado da cantora norte-americana Taylor Swift (Evermore - 2020) é a canção Champagne Problems. O eu-lírico da produção denuncia um amor não correspondido, mas neste caso, que ela mesmo não correspondeu. Narrando uma história de amor que ela mesma frustrou, expõe o outro lado do romance que não deu certo, o coração dilacerado de quem não pôde corresponder ao amor de quem a pediu em casamento, mesmo que o quisesse. 


No século XIX, a escritora Louisa May Alcott, autora de Mulherzinhas e Boas esposas, narrou a história de Jo March (Saoirse Ronan), jovem que não conseguiu dizer “sim” à Theodore "Laurie" Laurence (Timothée Chalamet). Como na música de Taylor, Laurie também teve a oportunidade de encontrar a “coisa real” que “remendou as tapeçarias” que Jo destruiu. Neste caso, com uma das irmãs de Jo, Amy March (Florence Pugh).


Apenas com os nomes de Ronan, Chalamet e Pugh o elenco escolhido para a adaptação dos livros de Alcott já seria de alto conceito. No entanto, Emma Watson (Meg March), Eliza Scanlen (Beth March), Laura Dern (Margareth March - Mãe) e Meryl Streep (Tia March) também compõem a garantia de um filme estrelado por atores não apenas experientes, mas com domínio na expressão de emoções subjetivas no cotidiano simples de uma família norte-americana do século XIX. 


Trazer uma das músicas mais profundas de Taylor Swift para ilustrar uma resenha sobre a adaptação de Mulherzinhas e Boas esposas não é apenas um capricho da autoria, declaradamente fã da cantora. No entanto, como o intuito de tal texto é imergir a quem lê no universo cotidiano das irmãs March - Meg, Jo, Beth e Amy - acredito que ouvir a música mencionada pode ser uma boa opção. Ótima dica musical para quem deseja ler as obras acompanhado de uma melodia, ou complementar a experiência do filme com músicas ambientadas com os “problemas insignificantes” das irmãs March, mesmo que não esteja na trilha sonora do filme dirigido pela genialidade de Greta Gerwig (responsável pela produção de Lady Bird, também estrelado por Saoirse Ronan, e com grandes expectativas aguardadas para a estreia do live-action de Barbie em 2023). 

Gerwig acertou. Acertou onde não necessariamente a diretora Gillian Armstrong errou na primeira adaptação cinematográfica de Mulherzinhas e Boas esposas, afinal, pode contar com a presença de Winona Ryder como Jo March na produção de 1994. Também acertou onde o canal PBS, dos Estados Unidos, não conseguiu alcançar com apenas dois episódios de adaptação, mesmo com nomes de atrizes em ascensão no entretenimento, como Maya Hawke (Jo March - 2018).  


Além da direção, um grande acerto também foi o do compositor francês Alexandre Desplat para a trilha sonora instrumental do filme. Little Women, Amy, Friedrich Dances with Jo e Laurie and Jo on the Hill são melodias que oferecem para o espectador mais da história que está sendo assistida. Como uma nova forma de narrativa, Desplat garante que a experiência de quem assiste e conhece pela primeira vez a dinâmica das quatro irmãs de idades próximas, a infantilidade da caçula Amy, a emoção de Jo encontrando verdadeiro amor no professor Friedrich e a tensão do amor não correspondido de Laurie, seja tão fiel aos livros, quando à sensação ainda desconhecida, mas finalmente encontrada, por aqueles que conheceram a história pelas páginas. 


É possível dizer que Little Women é uma adaptação de decisões ousadas, mas bem recebidas. Também concorda o website norte-americano Rotten Tomatoes, que faz profundas críticas às produções cinematográficas e televisivas, que deu 95% de aprovação para o filme de Gerwig. Fundir dois livros em um filme é arriscado. Enquanto grandes produções do cinema faziam dois filmes para a adaptação de apenas um livro, lutando para agradar o público leitor, mas também os bolsos de Hollywood, Gerwig fez o oposto: suprimiu mais de 500 páginas de dois romances em um longa de 135 minutos. E o fez bem. 


Enquanto a produção de Armstrong acompanhou a ordem cronológica de crescimento e vida das irmãs March, Gerwig e o diretor de fotografia francês Yorick Le Saux apostaram nas cores para que a narrativa não precisasse necessariamente acompanhar a ordem dos dois diferentes livros. Seu trabalho misturou cenas das irmãs March ainda crianças e adolescentes (em Mulherzinhas) com cenas das jovens adultas e casadas (Boas esposas). O fator divisor de águas para que a separação pudesse acontecer de forma efetiva é a morte de uma das irmãs no início do segundo livro. As cenas de Little Women que ainda contam com a presença de Beth March têm cores quentes e vivas; já as cenas de Meg, Jo e Amy adultas são compostas de cores frias - ótima adaptação e referências ao psicológico abalado das irmãs que perderam “a música de seus ouvidos” com a morte da única March afeta aos instrumento, principalmente ao piano. 


Como uma produção de ineditismos, Gerwig e Sarah Polley apostaram suas notas mais altas em um roteiro que além de cenas do primeiro e segundo livro de Alcott continha diálogos criados do zero. Aqui, leitores fiéis se incomodam. Porém, a atuação da uma das principais cenas inventadas garante que a aposta das roteiristas tenha sido das boas. 


Mulherzinhas e Boas esposas foram livros escritos nos anos 1800. Como um romance rotineiro, sem grandes segredos e movimentações, os livros cumprem seu papel, não apenas naquele momento, mas a agitação do século XXI exige que histórias simples tomem nosso tempo vez ou outra. Mas apesar disso, não nos custa pensar na posição social da mulher no século em que tais livros foram escritos. Na história, todas as irmãs

March casam, felizmente, por homens que as verdadeiramente amavam. Porém, suas ambições não eram grandes, com exceção de Jo March - que nunca desejou um casamento para si, ou para suas irmãs, e sempre se colocou em lugares de destaque, comumente ocupados por homens. Também não nos custa imaginar como era ser Jo March em 1800, no entanto, Alcott apenas permite que os leitores vejam as críticas que Jo recebia dentro de sua própria casa. 


Porém, Little Women é uma adaptação de 2020, mais de 150 anos depois da publicação do primeiro livro que deu origem à obra. E aí? Manter a essência da época? Little Women precisa ser uma narrativa fiel? Qual a importância de adaptar uma obra em que não mostra grandes feitos da parte da mulher? Sinceramente, importância não teria nenhuma. Mas Alcott nunca escreveu um livro de importâncias, mas de cotidianos. Para o cotidiano, uma adaptação comum de Mulherzinhas seria suficiente e satisfatória. Mas felizmente foi mais do que isso. 


Conhecida como a cena do “Casamento é uma proposta econômica”, Florence Pugh dá vida, com todos os aspectos vivos que essa palavra pode atribuir, ao discurso inexistente nos livros. A caçula da família, Amy March, desabafa toda sua indignação com a posição da mulher na sociedade. Ela, que gostaria de ser uma grande pintora, sabe que não conseguirá prover por sua família sendo uma mulher atuando em tal profissão, e desafia o amigo de infância Laurie em sua pouca visão de mundo e realidade.


A conformação em se tornar um “ornamento para a sociedade” ao aceitar se casar com um homem de boas condições financeiras, a sujeitar-se ao lugar de quem não pode escolher casar-se por amor pois é “só uma mulher”, e submeter seu futuro dinheiro e filhos apenas ao marido são frases ditas por Amy, que lamenta, e desafia o lugar que pode ocupar na sociedade do século XIX. 


Apesar de não focar a narrativa em questões feministas, Gerwig e Polley abordam o assunto de forma sutil, mas com forte presença no filme. É possível que alguns defensores da narrativa fiel ao livro se incomodem, e neste caso, não há problema. Os livros de Alcott sempre estarão disponíveis para os que não conseguem imaginar novas versões dos personagens que se apaixonaram. 


Porém a autoria também é uma grande fã da narrativa fiel, mas é maior admiradora ainda das possibilidades que novas formas de narrativa podem trazer à produções já existentes. Neste caso, sem resguardos aos elogios de direção, elenco, trilha sonora e fotografia, no entanto, palmas extras ao ineditismo de cenas únicas e diálogos desafiadores como o estrelado por Pugh. 


O termo "champagne problems” é usado para referir-se a problemas que não necessariamente afetam o bem-estar de uma pessoa. Na adaptação de Gerwig, as irmãs March dos problemas “frescos” ou até mesmo “insignificantes” de romances não correspondidos ganham espaço para muito mais do que champagne problems com questionamentos feministas e de posição social em pleno século XIX.


Créditos: Delirium Nerd


Ficha Técnica: 


Título do filme: Little Women (Tradução: Adoráveis Mulheres)

Ano de produção: 2019

Data de estreia no Brasil: 9 de janeiro de 2020 

Direção: Greta Gerwig

Roteiro: Greta Gerwig e Sarah Polley

Direção de fotografia: Yorick Le Saux

Trilha Sonora: Alexandre Desplat 

Duração: 135 minutos 

Classificação indicativa: 10 anos 

Gênero: Drama; Família; Romance

País de produção: Estados Unidos

Elenco: Eliza Scanlen, Emma Watson, Florence Pugh, Saoirse Ronan, Timothée Chalamet.


Sinopse: 


Em meio à Guerra Civil dos Estados Unidos, as irmãs March lidam com conflitos entre sua infância e início de vida adulta, em meio a romances e desafios.


Avaliação: 


⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️