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Porque a aristocracia não tão branca de Bridgerton não é um problema - Artigo

Liam Daniel / Netflix/Divulgação


Lançada em pleno natal de 2020, a série “Bridgerton” da Netflix foi um verdadeiro presente para os espectadores, principalmente para aqueles que já eram fãs de longa data da coleção de livros de mesmo nome, de Julia Quinn. A expectativa vinha sendo aumentada desde o anúncio da produção e divulgação do trailer, o que resultou em 63 milhões de espectadores em apenas doze dias. Mesmo assim, o sucesso não é sinônimo de aprovação unânime. 


Quanto ao roteiro, trilha sonora, direção, atuação, cenários e figurinos, não houveram grandes críticas. O alvo na verdade foi direcionado a escolha de elenco, em especial o protagonismo negro – inexistente nos livros, e mesmo assim, apoiado pela autora, que também faz participação no roteiro. Originalmente, o personagem Simon Basset é descrito com cabelos cheios e escuros, com destaque para os olhos azuis do duque, e na série é representado por René-Jean Page, além da Rainha Charlotte, inexistente nos romances originais, interpretada por Golda Rosheuvel, ambos atores negros.


Logo após o lançamento da primeira temporada, o site de resenhas estrangeiro IMDB foi bombardeado por comentários acerca da falta de fidelidade. A partir disso, as críticas se dividem em apontar a divergência quanto ao livro, em paralelo com a falta de fidelidade histórica, uma vez que a Inglaterra do século XIX não incluia negros em posições de poder, e sim possuia colônias em que a escravidão era uma prática legal. 


O debate se tornou amplo na internet, com direito a pronunciamento de parte do casting, como a atriz Nicola Coughlan, a favor da escolha dos atores. A realidade é que, para o primeiro argumento, a série de livros é uma obra de ficção em que a questão racial é anulada, sem que haja sequer um comentário acerca da presença ou ausência de pessoas negras naquele ambiente. Mesmo nos livros, nunca se propôs a ser uma narrativa fiel à realidade da época, já que não é crível que, por exemplo, em uma família aristocrata com oito filhos, todos se casem puramente por amor, e não interesses. 


Quanto a fidelidade histórica, a série recria uma realidade em que não existe racismo, o que inclui a representação de negros no mais alto poder. A maior resposta para isso, no entanto, está em um estudo do historiador Mario de Valdés y Cocom, em que há a sugestão de uma ancestral negra da rainha Charlotte (1744-18180), o que justificaria traços como a pele mais escura e nariz largo em seus retratos reais. 


A representação da rainha por uma atriz negra foi interpretada por uma migalha de representatividade por parte do público: se a intenção era realmente dar protagonismo a negros, o correto seria representar uma realeza africada, existente historicamente, mas inviabilizada tanto na história como em produções ficcionais. Pessoas negras deveriam poder contar a própria narrativa histórica de seus ancestrais, não só dar vida a história branca.


O caso é que a família real britânica de Bridgerton é composta por negros, bem como parte significativa da sua aristocracia. Não só na primeira temporada da série, mas também na segunda, em que duas protagonistas são negras: as irmãs Sharma, que também recebem outras características nos livros originais. Para aumentar a diversidade de culturas no roteiro, as personagens são originárias da Índia, o que não serviu para acalmar os ânimos de espectadores que acusaram a escolha das atrizes como sendo uma “cota de diversidade”. Isso levou a uma das atrizes, Charithra Chandran, a comentar que duvidou do próprio potencial ao dar vida a Edwina Sharma. 


Em defesa, as produções da Shondaland já tiveram outros protagonistas diversos, além de atores brancos já conhecidos do audiovisual. Porém, difere de outras adaptações de romances de época, como os livros de Jane Austen, feitos por outros estúdios. Como se a presença de pessoas negras se tratasse de um fato contemporâneo e atual, que não pertence a obras que retratam os séculos passados. No caso de Bridgerton, também podemos enxergar como uma forma de atualizar a narrativa, assim como a trilha sonora com versões instrumentais de sucessos bem atuais – que foi aclamada pelo público por incluir nossa realidade em algo de dois séculos atrás.


Abrir esse espaço de representatividade faz parte do chamado color-brind casting: a escolha do elenco é feita exclusivamente pelas habilidades de interpretação de cada ator, não incluindo na análise suas características físicas, sejam elas quais forem. Como uma espécie de audição às cegas, com o objetivo de abrir o leque para a diversidade.


Inegavelmente, o elenco de Bridgerton – desde a rainha Charlotte, passando pelos protagonistas de ambas as temporadas já lançadas, até a figuração dos grandes bailes com damas e cavalheiros de todas as etnias – é uma quebra de padrões, afinal, quantas séries atuais possuem presença de personagens negros, sem que se tratem de violência ou pobreza? Normalizar tal presença é necessário uma vez que a existência de pessoas negras na nossa realidade também é completamente normal, então não há motivo para ser diferente em produções artísticas. 


Não se trata de uma inclusão forçada, mas sim uma possibilidade de como poderia ter sido o passado histórico sem o racismo ou o imperialismo explorador. Sem que ele seja negado, mas levado para a ficção de forma que a realidade de hoje seja refletida nas telas, e não os problemas e erros passados. 


O espaço social de pessoas negras é necessário em cada produção cinematográfica como maneira de lhes oferecer algo que já foi negado por tempo demais. E se para isso for necessário que Bridgerton seja criticada até que tal espaço seja normalizado, que venham mais críticas para a próxima temporada.