Reprodução: Instagram Editora Intrínseca
“Teto para Dois”, da Beth O’Leary foi um dos meus 40 livros lidos de 2020, e terminou com uma avaliação cinco estrelas e mais livros da autora na minha lista de desejados. Casais reais são os que mais cativam, e nisso, Tiffy e Leon são especialistas.
A comédia romântica é daquelas em que você sabe o final logo pela sinopse, mas se prende nos detalhes que te levarão até lá. Leon e Tiffy não se conhecem, mas dividem o apartamento (e a cama). Isso porque Leon é enfermeiro, e só usa a casa durante o dia, enquanto Tiffy está no trabalho, e aparece na residência somente pela noite.
Enquanto você torce pelo encontro dos dois, que passam boa parte do romance trocando post-it engraçadinhos pela casa, a narrativa te dá espaço para conhecê-los individualmente. E apesar de Leon ser um ótimo personagem, bem mais profundo do que diversos outros mocinhos, precisamos falar sobre a Tiffy.
Ela acabou de sair de um relacionamento longo e tóxico, e também do apartamento do ex. Está se redescobrindo como mulher, e toda a energia vital que pode ter longe de um cara que a rebaixava. Tiffy usa roupas vibrantes e fala muito - muito parecida com a Lou, de “Como eu era antes de você” nesse aspecto - e é simplesmente cativante sem precisar de muito. Tudo isso cria uma identificação e afeição pela personagem, e faz com que o leitor queira mais quando o livro acaba.
Além da Meg Cabot, com “Tamanho 42 não é gorda” e “Tamanho 44 também não é gorda”, não são muitos os romances que possuem protagonistas de romances que passam do manequim 38. E isso foi na década passada, diga-se de passagem, em que a internet ainda não era o fenômeno de hoje e a questão da representatividade de corpos era muito menos discutida. E isso a Tiffy faz, ao ser descrita no livro como uma mulher alta e certamente não magra. Ou seja, no imaginário dos leitores, ela é uma mulher mid-size, em que o manequim varia do 40 ao 48.
Isso faz com que a Tiffy seja muito diferente de mim, ao menos fisicamente, afinal, eu visto 34. E mesmo assim, pelas primeiras imagens da adaptação da série foram divulgadas pelas mídias da Intrínseca, editora que trouxe o livro para o Brasil, a Tiffy se parece mais comigo do que com a descrição original.
A minissérie de seis episódios está prevista para ainda esse ano, e estreia na Paramount+. Mesmo sem data de lançamento exata, o roteiro da adaptação é da escritora e produtora executiva Rose Lewenstein, com direção de Peter Cattaneo, que já recebeu indicação ao Oscar.
Não, não há nenhuma parte de mim que goste da escolha da atriz. Jessica Brown Findlay ficou conhecida pela série Downton Abbey, tem cabelos castanhos e ondulados, 1,65 de altura e, pelo menos visualmente, veste 38. Não faltaram comentários nas redes que evidenciam essa discrepância.
Em uma adaptação, tem-se em mente justamente isso: adaptar o livro para um novo formato. Nesse caso, parece que também há a necessidade de adaptar o corpo da personagem para ser visualmente mais agradável, afinal, quilos e curvas a mais não incomodam quando não são vistos, nos livros, mas não são um atrativo para o público do audiovisual. Por mais que não haja dúvidas do potencial de Jessica como atriz, nas palavras do público, ela não é a Tiffy. Isso porque o físico da personagem impacta na narrativa, uma vez que é um dos fatores da baixa autoestima no início da narrativa. Aqui, torna-se evidente que a escolha de atores deve sim ser feita pela sua capacidade de atuar, mas também respeitar as individualidades dos papéis que interpretam.
O fato é que foi tirada a chance de mulheres que não performam a magreza de se verem em uma produção romântica, e ainda mais, de um livro que gostam. Não há a mesma representatividade garantida na obra original, e muito se perde com isso. A mensagem passada, de forma implícita, é que mulheres fora do padrão de corpos não são protagonistas de grandes histórias de amor - sem considerar a leitura mais ampla de que essas mulheres não são vistas como amáveis, criticada por outros internautas.
Uma das sugestões dos fãs, inclusive, foi de que a atriz escolhida pudesse ter engordado para o papel, o que levou à discussão do porquê simplesmente não escolher uma intérprete que já tivesse esse corpo, como ocorrido com a Penélope, de “Bridgerton”, em que o peso e descrição da personagem nos romances é semelhante à atriz Nicola Coughlan.
Há sim atrizes com corpos mid-size que fariam muito bem o papel de Tiffy em “Teto para Dois”, mas essa certamente não foi a escolha da produtora. O público, que mesmo revoltado com a falta de diversidade, também está acostumado a isso, de certa forma, chegou a comemorar o fato de que Leon será vivido por Anthony Welsh, um ator negro, assim como o personagem original. Ao menos isso foi mantido, o que mostra novamente a possibilidade de estender a diversidade para Tiffy.
A Paramount, apesar de também ter recebido os comentários em sua página e ter sido marcada em inúmeras críticas no Twitter, não respondeu a nenhuma delas.
O caso mostra que migalhas de diversidade não alimentam mais um público faminto, que quer sim ver seus semelhantes na tela da própria casa, e sonhar com as histórias de romance como se fossem seus protagonistas. E essa não é uma metáfora sobre peso.